Por Emmanuel Bento
09/04/2026
No universo da inovação, cada avanço que simplifica processos também pode ampliar o campo de vulnerabilidades. Soluções como o Pix ilustram bem esse paradoxo. Nesse contexto, a cibersegurança deixou de ser um apêndice técnico para ocupar um papel estratégico nas organizações.
Esse foi o ponto de partida do primeiro Conexão Rec’n’Play de 2026, encontro que serve como um aquecimento para os debates do festival de novembro. Com o tema “Cibersegurança além da proteção: impacto real no negócio”, a edição foi conduzida por Silvio Meira, cientista chefe da TDS Company e cofundador do Porto Digital, nesta quinta-feira (9).
Ao longo do encontro, temas como mudança de cultura organizacional, mapeamento de riscos, formação de profissionais e uso estratégico da inteligência artificial se entrelaçaram em um mesmo diagnóstico: empresas ainda tratam a cibersegurança de forma reativa.
Silvio Meira defendeu a ideia de que a segurança precisa ser incorporada desde o início do desenvolvimento tecnológico, e não tratada como uma etapa final. “Primeiro pensamos em funcionalidade, interface, performance e resiliência, e só depois na segurança. Precisamos mudar radicalmente essa lógica e reconhecer que todo código será atacado”, afirmou.
Para isso, o profissional do futuro também precisa ampliar sua base técnica. “Mais do que escrever código, é essencial compreender fundamentos de criptografia, algoritmos e estruturas de dados, pilares que sustentam sistemas mais seguros.”
Mapeamento de riscos
A discussão sobre cultura organizacional foi aprofundada por Flávia Brito, CEO da Bidweb, que defendeu uma postura mais vigilante por parte das empresas. “Hoje, muitas empresas acreditam que isso não vai acontecer com elas. Mas, se sou uma fintech, por exemplo, preciso mapear continuamente os riscos, inclusive na cadeia de fornecedores”, destacou.
Flávia também chamou atenção para um entrave recorrente no setor: a falta de compartilhamento de informações, segundo ela, limita a capacidade do ecossistema de aprender com os ataques. “A cibersegurança hoje se apoia em duas grandes frentes: inteligência artificial e estratégia”, resumiu.
O papel da IA
O papel da inteligência artificial foi abordado por Paulo Freitas, doutor em Ciência da Computação e Engenharia Elétrica e professor do CIn/UFPE. Para ele, a IA deve ser entendida como uma tecnologia de uso dual.
“Ela será utilizada tanto por quem ataca quanto por quem defende. Já existem ataques que tentam burlar sistemas de biometria com IA, assim como iniciativas para comprometer o funcionamento de modelos inteligentes”, explicou.
Repensando estruturas
Na mesma linha de transformação estrutural, Marco Carnut, fundador da Tempest Security Intelligence e cofundador do Z.RO Bank, defendeu mudanças mais profundas no sistema financeiro e nos modelos de segurança vigentes. “Ainda operamos com estruturas centralizadas e baseadas em paradigmas antigos de segurança. Precisamos formar novos profissionais e revisar a forma como pensamos esses sistemas”, afirmou.
Formando talentos
Fábio Maia, pesquisador-chefe do Centro de Segurança em Sistemas Avançados (CISSA), operado pelo CESAR, reforçou o desafio da formação de talentos na área. “A cibersegurança ainda carece de profissionais. É raro ouvir alguém dizer que quer seguir carreira como analista de segurança. Iniciativas como o CISSA buscam ampliar essa conscientização e fortalecer o ecossistema com melhores ferramentas e pesquisa aplicada”, diz.
Maia também destacou a necessidade de soluções mais eficientes e menos dependentes do fator humano. “Precisamos de uma segurança centrada nas pessoas, mas que não dependa exclusivamente delas. Automação e inteligência artificial são caminhos para tornar a defesa mais ágil e robusta.”
Ao final, ficou evidente o consenso de que em um ambiente cada vez mais digital e interconectado, a segurança deixou de ser um complemento e passou a integrar a base de qualquer inovação que se pretenda consistente.
